Esse conto foi escrito para ilustrar a situação de um homem que não pode se perdoar. Estão escritas duas cartas: uma do homem, chamado Jesus, e outra da mulher, Lisa. O que acontece quando a Graça estrapola os limites do nosso entendimento?
Perdoe-me por que acho que matei um homem. Eu queria escrever uma carta para você, Lisa, afinal, você é minha esposa. Nunca encontrei uma mulher parecida com você: atraente, gentil, compreensiva… Sei que posso contar com você para o que der e vier. Tudo menos isso. Eu não sei se realmente o matei. Mas fui covarde demais para checar se estava realmente morto. Por isso, peço que me perdoe. Porque também não tive coragem o suficiente para incomodar você com isso. Por isso, Lisa, quero que você me perdoe por não estar aí quando a polícia chegar e quiser me prender. Nem sei se eles vão chegar realmente, mas é melhor esperar pelo pior.
Uma noite, quando saí do bar após um dia de trabalho como todos os outros, uns amigos vieram até mim e pediram que os acompanhasse até a casa de um deles, onde havia uma confraternização. Não quis ir.
– Deixa pra próxima – Os amigos entenderam.
Ao chegar em casa, vi você com algumas amigas no portão de casa, jogando conversa fora. Passei o braço pela sua cintura, saudei as mulheres que estavam perto do portão, e dei um beijo no seu rosto. Nunca mais vou esquecer. Foi o último dia em que vi você.
– A janta está no fogão, Jesus. Eu vou esquentar – você me disse.
Quando entramos, ouvimos um barulho no sótão. Um barulho esquisito, como algo que tivesse caído. Olhei pra cima, o barulho parou. Não achei nada demais. Havia um buraco de mais ou menos meio metro no teto do sótão, que eu havia prometido a mim mesmo que iria consertar, e os gatos freqüentemente faziam a festa lá.
– Tenho que consertar aquele buraco, Lisa.
Você sorriu.
¬– Você sempre diz isso, Jesus. Gostaria que fosse verdade dessa vez.
– Vai ser, Lisa. Acredite. Sábado mesmo eu vou pegar um martelo, algumas tábuas e vou consertar aquele buraco. Gato nenhum vai fazer festa no meu sótão.
Você sorriu novamente, mas dessa vez, não falou mais nada.
Gostaria que tivesse falado. Pelo menos, teria mais lembranças da sua voz na minha cabeça.
Naquela noite, depois que fomos dormir, eu ouvi outro barulho no sótão. Você não acordou. O que eu fiz foi simplesmente pegar um pedaço de madeira pra espantar seja lá quantos gatos estivessem no sótão. Eu não tinha idéia que não iria encontrar gatos lá.
Quando cheguei no sótão, vi um homem com um saco cinza nas costas, cheio com o que parecia ser as bandejas de prata que nós tínhamos ganhado de presente de casamento. Não consegui ver o rosto dele, porque estava encoberto na sombra. O buraco do teto tinha triplicado de tamanho. O barulho que tínhamos ouvido era o barulho das tábuas. E o barulho que eu ouvi foi a tentativa de fuga.
Assim que me viu, ele tentou jogar o saco na minha direção, mas eu me desviei. Nem me lembrei que estava com um pedaço de madeira de meio metro na mão. Deus, como eu não queria lembrar daquele pedaço de madeira!
De repente, ele veio em minha direção. Não sabia o que fazer, só que devia me defender. Peguei a madeira que eu tinha e atirei contra ele. Quando ele caiu com uma das mãos nos olhos, sabia que o tinha acertado. Eu falei pra ele ficar parado. Foi quando você acordou, e provavelmente tenha me procurado na casa, antes de chegar ao sótão. Quando ele ouviu você, se jogou novamente sobre mim, e eu me vi obrigado a bater nele ainda mais. Com uma fúria que eu desconhecia, eu comecei a bater mais nele, até que eu me cansei de bater. Tarde demais. Ele já estava todo ensangüentado, com o rosto completamente desfigurado, e eu sabia que eu era o responsável pela aparência dele. Mas infelizmente – infelizmente! – eu consegui ver quem era por trás de todas as feridas.
¬– Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Mas eu sabia o que tinha feito.
Fugi direto para cá. Usei o teto para fugir, antes que você chegasse ao sótão. Não queria que você me visse, por isso, eu tranquei a porta do sótão e saí pelo teto. Provavelmente, minha viagem não tem volta.
Eu estou num lugar onde você ou qualquer outra pessoa não podem nem pensar em me procurar. Eu tinha visto numa foto, em algum lugar da estante de um vizinho meu. Aquele vizinho que ajudou o seu pai quando ele tentou roubar a TV da sua casa pra sustentar o vicio do álcool. Isso quando eu tinha dezessete anos. Eu nem sei como consegui me lembrar daqui.
Me perdoe, meu amor. Sei que não foi realmente a melhor atitude. Nossos pais sempre nos ensinam a enfrentar os nossos erros. Mas eu não podia conviver com isso por muito tempo.
Como eu disse, eu não sei se o matei. Mas mesmo que eu não o tenha matado, não poderia suportar o que fiz com o rosto dele. Creio que nem mesmo as cirurgias mais avançadas podem reconstruir o rosto dele. Realmente, para ele e para mim, é melhor que eu o tenha matado.
Não tenho nada mais a falar. Apenas peço que me perdoe. Porque acho que matei um homem, mas não apenas isso. Perdoe-me, porque o homem que eu acho que matei, o principal motivo da minha fuga, não era um desconhecido. Perdoe-me, porque esse homem, meu amor, era seu pai.
Essa é a resposta de Lisa, mulher de Jesus.
Meu querido marido.
Com muito custo, consegui eu mesma abrir a porta do sótão. Você já tinha ido embora. O mesmo homem que você descreveu, estava no chão, ensangüentado; não estava respirando mais.
Recebi sua carta dois dias depois. Fiquei muito tempo com ela fechada, antes de decidir se eu a leria ou não.
Jesus, estou escrevendo essa carta como resposta. Encontrei a tal foto que você disse e perguntei a uns amigos meu que moram aí se eles sabiam onde você estava. Bem, encontrei você. E o homem que você acha que matou é sim, meu pai.
Ele havia morrido, como você tinha pensado. Teve um colapso do coração, acredita? Não foi realmente você que o matou. Foi a bebida. No fundo, eu sabia.
Semana passada, um dia antes de você partir, eu tinha falado com minha mãe. Ele havia saído de casa – estava roubando tudo. Estava morando na rua agora, mas ainda continuava bebendo. Deus sabe o quanto nós pedimos para que ele parasse.
Oferecemos ajuda de diversas maneiras, e você é testemunha disso. Lembra quando ele me bateu na frente de todos os nossos amigos? Bom, eu lembro.
Mas apesar disso, sempre o amei. E muito. Ele foi o homem que me ensinou a ler, ensinou o significado do amor não fingido. Não havia hipocrisia com papai.
Eu sei que está se sentindo culpado pelo que fez, afinal, era meu pai. Mas não quero que se sinta pior do que já está. Jesus, quero que leia com atenção: VOLTE PRA CASA.
A polícia entendeu que foi em legítima defesa e você vai responder o processo em liberdade. Não precisa mais se esconder, está bem?
Tudo o que você me disse eu pensei muito antes de tomar essa decisão. Me lembrei dos nossos votos de casamento: “na alegria e na tristeza”.
Não se torture mais. Por favor, eu preciso de você.
Eu te perdôo. E se você não quiser mais voltar pra cá, por qualquer motivo, volto com você pro México. Eu amo você.
Por favor, tudo o que eu quero é que você entenda que o que você fez não muda o que sinto por você. Você errou, sim, mas sei que não fez porque quis.
Ao ler essa carta, só quero que se lembre de mim. E, se você quiser, seu lugar está guardado. Só não me deixe esperando mais.
Jesus, volte pra mim.
Com amor, Lisa.
A graça é algo que não fazemos nada pra receber. Nem sequer a merecemos, mas Deus nos dá gratuitamente. Lisa, a mulher de Jesus, nosso personagem tinha todos os motivos para odiar o marido. Mas antes disso, resolveu perdoá-lo por não conseguir viver longe dele.
Da mesma forma, Deus nos perdoou por todos os nossos erros porque simplesmente, não conseguia viver sem nós. Como um Deus apaixonado, Deus nos perdoou por tudo, sem pedir nada em troca, simplesmente esperando que voltemos pra o lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Nenhuma quantidade de culpa é suficiente para ocultar Deus de você. Nenhuma quantidade de justiça própria é suficiente para suborná-lo. Ele nos ama porque é infinito em perdoar.